Iscte no Expresso

De forma a assinalar o cinquentenário da nossa instituição, o Expresso irá publicar mensalmente um artigo redigido por investigadores e docentes do Iscte.

Juntos vamos mais longe

Dizem que é um provérbio africano: sozinhos vamos mais rápido, mas juntos vamos mais longe. Não sei se o é. Todavia, o seu teor espelha muitos dos resultados alcançados na investigação na minha área de estudo, a Psicologia Social. As soluções colaborativas e que se constroem a partir da diversidade são as mais estáveis e consensuais. É verdade no que se refere à atividade dos grupos humanos e, na minha ótica, também o é no que respeita ao desenvolvimento da ciência. Os problemas com que nos deparamos hoje são demasiadamente complexos para serem abordados a partir de uma única perspetiva científica e os grandes progressos a que temos assistido em áreas como as da saúde - para me limitar a um caso específico – são produto da colaboração entre disciplinas. No caso da dor crónica, por exemplo, o avanço no conhecimento requer o trabalho conjunto não só de especialistas em ciências médicas, mas também em tecnologias de imagem, eletrofisiologia celular, neuro-química, genética, da psicologia, da sociologia e dos estudos culturais.

Foi por acreditar nas potencialidades da interdisciplinaridade que me empenhei, no âmbito do Conselho Científico do Iscte, na construção de um conjunto de estruturas dedicadas ao desenvolvimento de investigação interdisciplinar. Estas constituem espaços de partilha onde os investigadores, docentes e estudantes de doutoramento se podem encontrar para trabalhar nos mesmos temas, combinando os conhecimentos de diversas disciplinas para procurar atingir resultados inovadores na formação, na intervenção e, claro, na investigação.

O primeiro destes espaços, dedicado à Saúde (o Iscte-Saúde), torna possível criar quadros de diálogo e de aplicação neste âmbito, a partir da nossa diversidade multidisciplinar. O caso da saúde digital é exatamente uma das áreas em que uma perspetiva societal, ligando as ciências da vida, as ciências sociais e as ciências tecnológicas, pode contribuir não só para o conhecimento científico, como para o desenvolvimento económico. O outro espaço interdisciplinar criado foi o SocioDigital Lab for Public Policies, Laboratório Associado apoiado pela FCT. Neste, as diversas unidades de investigação do Iscte  articularam-se para produzir investigação aplicada que, através da conjugação entre os contributos da inteligência artificial e os das ciências sociais, venha permitir o desenvolvimento de políticas públicas baseadas na evidência científica.

Finalmente, decidimos construir o Centro de Valorização e Transferência de Tecnologia (CVTT, Iscte Conhecimento e Inovação), um edifício que materializa essa perspetiva de encontro e colaboração entre disciplinas e olhares diferentes. Trata-se de um lugar inovador destinado ao acolhimento de todas as unidades de investigação, laboratórios, observatórios e cursos de doutoramento do Iscte. Foi concebido de raiz para possibilitar e facilitar o diálogo, não só entre disciplinas diferentes, mas também entre o universo académico e científico e a sociedade. Virá permitir a colaboração e a cocriação de projetos que envolvam as tecnologias digitais e as ciências comportamentais e sociais e, ao mesmo tempo, estará aberto aos atores sociais, na resposta aos desafios colocados pelas sociedades entre os quais os que se colocam à cidade em que estamos inseridos, Lisboa, e à sua área metropolitana. Representa um salto qualitativo enorme, só possível por acreditarmos que juntos iremos mais longe.


Luísa Pedroso de Lima, Presidente do Conselho Científico do Iscte - Expresso, 29.04.2022

Inteligência Artificial para a Administração Pública

A aplicação de Inteligência Artificial (IA) na melhoria da tomada de decisões na Administração e nas Políticas Públicas é um tema de crescente importância. Ao contrário da faceta da IA que é muitas vezes discutida (a possibilidade de criação de uma inteligência de nível humano), muitas das ferramentas associadas a esta área têm aplicações práticas e úteis no imediato: a capacidade de melhorar o aconselhamento de formação a candidatos a emprego, a possibilidade de triagem semiautomática de reclamações, a análise de risco de projetos que usam fundos públicos, entre muitas outras.

O Centro de Competências de Inteligência Artificial para a Administração Pública (IA>AP), que o Iscte está a desenvolver, tem como objetivos: a sensibilização da Administração Pública (AP) para a utilização de ferramentas de IA; a prática de utilização de casos reais da AP em sala de aula e nas dissertações de mestrado na área de Ciências e Tecnologias da Informação; e o prestar contas, por parte da academia, da utilização dos dados e das descobertas feitas às entidades que connosco colaboram. Como tal, este centro funciona como um laboratório vivo para a AP, para suporte à descoberta e teste de modelos de inovação aplicáveis em vários domínios de ação com impacto na eficiência, eficácia e qualidade dos serviços públicos.

A inovação pela tecnologia tem custos de infraestrutura, de exploração e compreensão, de processos de recolha, tratamento e utilização de dados, que nem sempre é passível de suportar por si só na AP. A academia pode ajudar a ultrapassar essa barreira inicial, podendo explorar múltiplas abordagens aos conjuntos de dados disponibilizados e encontrar diferentes modos de os valorizar. Os processos devem ser sistematicamente documentados e os resultados apresentados à AP para uma eventual posterior adoção, apoiando os processos de prestação de serviços públicos.

Muitas instituições perceberam as vantagens deste tipo de cooperação e projetos, havendo já, por todo o país, exemplos pontuais de cooperações entre a AP e a academia. Alguns destes são por iniciativa da AP, como é o caso inspirador da utilização dos dados da Câmara Municipal de Lisboa (CML) para desafios, que, há vários anos, são abordados por estudantes universitários.

Os estudantes do Iscte estão a ser formados para enfrentar os mesmos desafios digitais levantados pela necessidade de valorizar a informação que a AP tem na sua posse. A sua preparação inclui a dimensão ética e responsável para que a transformação desta informação em conhecimento seja útil para apoiar os decisores, mas também que seja justa, equitativa e transparente. Para a prossecução destes objetivos, a utilização de dados e problemas reais é da maior importância. A educação de uma geração formada para saber tirar partido destas tecnologias e, simultaneamente, sensibilizada para os desafios de gerir e administrar o património público para um bem comum e para o respeito pelas entidades públicas e por todos os cidadãos, é um passo no caminho certo de um futuro melhor e mais sustentável.


Luís Nunes, docente e investigador do Iscte - Expresso, 28.03.2022

História e dilemas de uma maioria absoluta

A democracia portuguesa atravessou três grandes fases. Entre 1974 e 1986, estabeleceram-se as instituições democráticas que ainda hoje regulam a vida política. Em 1986, a entrada nas comunidades europeias reforça o consenso entre PS e PSD sobre o modelo de economia e Estado social, alternando estes dois partidos no governo e excluindo a esquerda radical. Este período termina, em 2010-11, quando, sob o impacto da grande recessão, é formada uma aliança neoliberal entre PSD e CDS, rompendo com as tradições social-democrata e democrata-cristã da direita. E a esquerda forma, pela primeira vez, uma aliança explícita, iniciada ainda durante o ciclo de protesto anti-austeridade de 2011-13, em que movimentos sociais, sindicatos, PCP, BE e uma parte do PS lançam as bases de um bloco alternativo, possibilitando a governação minoritária do PS em 2015.

A maioria absoluta do PS, em 2022, é o último epísódio desta viragem à esquerda, o que é surpreendente, dada a decadência dos partidos socialistas por toda a Europa. Mas é resultado directo da memória da revolução, ainda uma linguagem comum da esquerda, e da rejeição da austeridade por parte do PS. A “Geringonça” aprofundou a qualidade da democracia portuguesa, ao permitir a integração política da esquerda radical e dos grupos sociais que esta representa e ao governar ao centro e à esquerda simultaneamente.

O grande beneficiário disto foi o PS. A “Geringonça” mudou a cultura política do eleitorado, que é maioritariamente de esquerda mas prefere reformas gradualistas, o que penalizou o PCP e o BE nas ultimas eleições, após estes interromperem o ciclo de governo. A maioria absoluta deve-se também à derrota da estratégia centrista do PSD. Com uma esquerda relativamente unida, e que já ocupa o centro, só um projecto de ideias claras à direita pode um dia vencer. Por seu lado, o PS tem condições únicas para realizar um programa reformista à esquerda, que combine redução de desigualdades, aprofundamento da democracia e modernização económica. Isto num contexto europeu mais permissivo em relação a constrangimentos orçamentais e favorável ao investimento público.

O paradoxo é que, para isso, o PS precisa da colaboração dos sindicatos e da esquerda radical. Não basta uma maioria parlamentar, é preciso uma maioria social. Tanto mais porque, após a derrota da estratégia centrista de Rui Rio, a direita, que aliás cresceu em número de votos e no eleitorado jovem, irá mais tarde ou mais cedo aglunitar-se num movimento mobilizador. Esse será certamente ultra-liberal. Mas pode ainda includir o Chega, agora mais robusto. Para se afirmar, a alternativa do PS tem assim que ultrapassar a posição defensiva que foi a “Geringonça”, para se constituir como o polo aglutinador de todas as forças progressistas da sociedade portuguesa. Se conseguir isso, poderemos assistir, na próxima década, a uma espécie de versão sul-europeia da hegemonia socialista que os escandinavos fizeram desde os anos 1930.


Tiago Fernandes, Departamento de Ciência Política e Políticas Públicas - Expresso, 25.02.2022

Modernizar o país com as universidades

Há 50 anos existiam em Portugal apenas quatro universidades: Porto, Coimbra, Lisboa e Técnica. Em dezembro de 1972, foi criado o ISCTE, com a missão expressa de contribuir para a modernização das universidades e do país, através de uma inovadora articulação entre ensino e investigação e da valorização das relações com o mundo do trabalho, das empresas e das instituições públicas.

Estava dado o primeiro passo da mais importante reforma das universidades portuguesas, desejada e estudada desde o início da década de 60. A intervenção de Manuel Rocha no I Congresso do Ensino de Engenharia, em 1961, o estudo sobre a Universidade Portuguesa, coordenado por Sedas Nunes e Miller Guerra, publicado em 1969, e o movimento crescente de protesto estudantil seriam os propulsores da mudança iniciada em 1972.

Nos anos seguintes, foram criadas mais seis instituições: no Minho, em Aveiro, na Covilhã, em Évora, em Vila Real e, ainda, em Lisboa (a Universidade Nova). O 25 de Abril e a aprovação da Constituição renovaram o sentido da reforma, tornando mais explícitos os objetivos de expansão e diversificação do ensino superior. As mudanças introduzidas ao longo de 50 anos de democracia foram profundas e não se resumiram à criação de novas instituições. Incluíram, nomeadamente, a democratização do acesso, a autonomia de gestão, o estatuto dos docentes, a diversificação de cursos e áreas de formação, o desenvolvimento do ensino de mestrado e doutoramento, a criação dos politécnicos, a articulação entre ensino e investigação, a institucionalização de processos de avaliação e acreditação e, finalmente, a integração no sistema europeu de graus e diplomas de Bolonha.

Cinquenta anos volvidos sobre a criação da primeira das novas instituições, podemos concluir que as universidades, as novas e as antigas, desempenharam um papel decisivo na modernização do país. O número de alunos do ensino superior passou de 40.000, em 1972, para 400.000, em 2020. Formaram- -se milhares de médicos, engenheiros, juristas, gestores, professores e outros diplomados que qualificam as instituições onde exercem a sua profissão. Formaram-se milhares de investigadores que integram o sistema científico e tecnológico do país, produzindo-se mais e melhor conhecimento científico.

Hoje, o pior obstáculo à relação virtuosa entre o desenvolvimento da universidade e o desenvolvimento do país é a ideia de que tudo está feito. A ideia de que todos os objetivos teriam sidos atingidos: já temos a geração mais qualificada, já aumentámos o número de alunos no ensino superior, já produzimos conhecimento, agora só precisamos de inovação.

O futuro é, porém, muito exigente. A transição digital e a questão ambiental, as exigências de aprendizagem ao longo da vida e de internacionalização e integração na Europa, o desenvolvimento social e económico colocam novos desafios que só podem ser enfrentados com as universidades. Novos desafios que requerem novas políticas de ciência, inovação e ensino superior verdadeiramente articuladas, que estimulem o trabalho colaborativo e pluridisciplinar, que removam espartilhos técnico-burocráticos e que assegurem a autonomia e capacidade de inovação das universidades. Continuar a modernizar o país exige que se renove o espírito reformista de há 50 anos


Maria de Lurdes Rodrigues, Reitora do Iscte - Expresso, 21.01.2022

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