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Notícias RDMC-SSH

Dataverse Community Meeting 2026 reuniu mais de 220 especialistas em Barcelona para debater o futuro dos dados de investigação na era da Inteligência Artificial

2026-06-19

A 12.ª edição do Dataverse Community Meeting (DCM 2026) decorreu entre 12 e 15 de maio de 2026, no World Trade Center, em Barcelona, reunindo mais de 220 participantes de diversos países envolvidos na gestão de dados de investigação, infraestruturas digitais, ciência aberta e políticas.

Durante três dias, investigadores, gestores de dados, programadores e decisores políticos partilharam experiências e conhecimentos, casos de utilização e perspetivas sobre os desafios emergentes da gestão e reutilização de dados de investigação numa época marcada pela rápida evolução da Inteligência Artificial (IA).

Das reflexões e partilhas divulgadas por participantes e oradores do evento, destaca-se o impacto dos modelos de IA generativa nos princípios da ciência aberta e na governação dos dados como um dos temas centrais do encontro. Slava Tykhonov defendeu que chegou o momento de repensar os modelos tradicionais de licenciamento de dados abertos, propondo uma abordagem diferenciada: dados abertos para utilização humana, mas sujeitos a restrições para sistemas automatizados e agentes de IA. Esta perspetiva assenta na criação de mecanismos de governação que permitam devolver aos proprietários dos dados de investigação um maior controlo sobre a sua utilização.

Uma das sessões plenárias contou com a participação de Stefaan Verhulst, que apresentou a keynote “Data Access at a Time of Generative AI: Worst of Times or Best of Times?”. O orador explorou o paradoxo atual do acesso aos dados, simultaneamente marcado pelo risco de um eventual “inverno dos dados” (Data Winter), motivado por receios associados à utilização indevida de dados por grandes modelos de linguagem (LLM) e por crescentes restrições geopolíticas, mas também por novas oportunidades criadas pela IA generativa.Segundo Verhulst, estas tecnologias podem contribuir para democratizar o acesso aos dados através de interfaces conversacionais, abrindo caminho para uma possível “quarta vaga dos dados abertos”. Contudo, alertou para a inexistência de soluções simples, defendendo respostas estruturais que reforcem a curadoria e a gestão responsável dos dados (data stewardship), bem como quadros regulatórios capazes de preservar a abertura e, simultaneamente, garantir uma reutilização responsável. Destacou ainda a crescente convergência entre ciência cidadã, dados abertos, IA e confiança pública.Entre as principais reflexões apresentadas durante o evento, sobressaíram o papel crescente dos Trusted Research Environments (TRE) enquanto infraestruturas de governação para dados sensíveis, a necessidade de uma ciência aberta mais participativa e orientada para o interesse público e a questão central colocada pela IA generativa: como preservar a abertura dos dados sem facilitar a sua exploração abusiva. Neste contexto, a comunidade Dataverse foi identificada como um ator particularmente relevante para liderar esta nova fase da gestão de dados de investigação.

Mercè Crosas Navarro, uma das figuras mais influentes da comunidade Dataverse, reforçou a importância dos repositórios confiáveis no ecossistema atual. Na sua intervenção, destacou a crescente relevância dos novos tipos de dados gerados por sistemas de IA, bem como a necessidade de cuidados acrescidos na gestão de dados sensíveis, nomeadamente através da utilização de TRE acreditados.

Mercè Crosas sublinhou igualmente a importância da governação dos dados e das soluções tecnológicas que a suportam, valorizando princípios fundamentais da ciência aberta como os dados FAIR, a proveniência da informação, a atribuição de crédito e o reconhecimento do trabalho associado à gestão de dados. Recordando duas décadas de desenvolvimento de infraestruturas de dados de investigação, salientou que o principal desafio continua a ser a mudança cultural e a adoção de práticas sustentáveis pelas comunidades científicas, processo no qual os repositórios podem desempenhar um papel fundamental.

Um dos exemplos mais interessantes de internacionalização foi apresentado pela equipa do Borealis, o repositório nacional canadiano baseado em Dataverse. Desde 2016, o projeto tem vindo a desenvolver uma infraestrutura bilingue, disponibilizada nas duas línguas oficiais do Canadá — francês e inglês —, expandindo gradualmente os seus serviços para incluir apoio técnico, documentação, formação e atividades comunitárias em ambas as línguas.

A apresentação “The Internationalization of Borealis: A Focus on Sustainability” destacou os desafios associados à sustentabilidade de uma infraestrutura multilingue e apresentou ferramentas de tradução colaborativa desenvolvidas para apoiar a comunidade Dataverse internacional. O projeto evidencia a importância crescente do multilinguismo nas infraestruturas de investigação e a necessidade de reforçar a cooperação internacional para garantir a continuidade dos esforços de internacionalização desenvolvidos ao longo da última década (Conlon, 2026).

A edição de 2026 confirmou o papel central da comunidade Dataverse na construção de infraestruturas abertas, confiáveis e interoperáveis para a ciência. Num momento em que a Inteligência Artificial está a redefinir profundamente as formas de produzir, aceder e reutilizar conhecimento, o encontro de Barcelona demonstrou que a resposta aos novos desafios dependerá tanto da inovação tecnológica como da capacidade de reforçar princípios de abertura, confiança e governação responsável dos dados.

A próxima edição do Dataverse Community Meeting realizar-se-á em Leuven, Bélgica, em 2027, dando continuidade a uma comunidade internacional cada vez mais ativa e relevante no panorama global da ciência aberta.

Referência

Conlon, A. (2026). The Internationalization of Borealis: A Focus on Sustainability. Dataverse Community Meeting (DCM 2026), Barcelona, Espanha. Zenodo. https://doi.org/10.5281/zenodo.20196998

Texto revisto com apoio de Inteligência Artificial generativa (ChatGPT, OpenAI), sob supervisão editorial da autora

Clara Boavida