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O Iscte - Instituto Universitário de Lisboa foi criado em 1972, no quadro de uma reforma das universidades públicas apoiada e induzida pelos sectores progressistas e desenvolvimentistas do regime autoritário, designando-se então Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.
A criação do Iscte assentou em traços distintivos que marcaram indelevelmente a sua história de quase cinco décadas e que constituem eixos de desenvolvimento para o futuro, dando origem a uma comunidade académica diversificada, plural e multidisciplinar. A celebração do nosso 50º aniversário é um momentos de todos na comunidade Iscte - estudantes, docentes, funcionários, antigos estudantes ou simplesmente amigos - refletirmos sobre onde viemos, o que realizamos e qual será a nossa visão de futuro.
Ver aqui vídeo sobre a história dos 50 anos do Iscte.
O Iscte -Instituto Universitário de Lisboa foi criado em 1972, no quadro de uma reforma das universidades públicas apoiada e induzida pelos sectores progressistas e desenvolvimentistas do regime autoritário, designando-se então Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.
De entre muitos protagonistas, podemos destacar três personalidades que tiveram um papel-chave na reforma que conduziu à criação do Iscte.
Adérito Sedas Nunes, economista e cientista social, diretor da revista Análise Social e do Gabinete de Investigação Social (GIS), dependentes do Ministério das Corporações e Previdência Social. Nos anos 60, Sedas Nunes realizou um estudo sociológico sobre as universidades em Portugal, identificando os seus bloqueios e limitações, bem como os caminhos de uma reforma profunda, tendo em vista a sua modernização e abertura à sociedade. Na revista Análise Social, no GIS, como no Instituto de Estudos Sociais (IES), criado em 1962, Adérito Sedas Nunes lançou as bases de produção de conhecimento científico sobre a sociedade portuguesa, reunindo inúmeros jovens investigadores bolseiros que viriam a ser alguns dos primeiros professores do Iscte, na área da sociologia e das ciências sociais.
Eduardo Gomes Cardoso, engenheiro, quadro dirigente do Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII), no âmbito do qual, ao longo da década de 60, desenvolveu vários estudos e ações de promoção da produtividade do país. Essas ações foram centradas em programas de formação em gestão de empresas, de capacitação de quadros técnicos para as empresas e para o sector público, na realização de conferências e debates e na edição de publicações. Nestes programas de modernização da economia portuguesa estiveram envolvidos outros engenheiros-gestores, bem como juristas da área do direito do trabalho, que desenvolviam atividades de gestão no sector público, nos organismos do Ministério da Indústria e do Ministério das Corporações e Previdência Social, bem como em empresas industriais do sector privado, os quais viriam a estar também entre os primeiros professores do Iscte, para o ensino da gestão de empresas.
José Veiga Simão, Ministro da Educação que, em 1970, lançou a reforma das universidades, criando instituições fora do modelo tradicional, as quais foram desafiadas a oferecer cursos em novas áreas disciplinares inexistentes nas velhas universidades. Isso mesmo é referido no Decreto-Lei, de 1972, que cria o Iscte:
O Iscte abre, pois, portas com dois cursos: Ciências do Trabalho e Gestão de Empresas.
Eduardo Gomes Cardoso sublinharia que o projeto de criação do Iscte, como antes os projetos de criação do GIS, e do IES, eram
“Cavalos de Troia” com os quais se procurou modernizar as universidades e o país. Um país em que, nessa época, na década de 70, as palavras sociologia e gestão eram mal vistas pelo regime conservador e autoritário, como era mal vista qualquer tentativa de mudança. Sociologia não se sabia bem o que era, mas suspeitava-se que, sendo etimologicamente próxima de socialismo, fosse comunismo disfarçado. Gestão era uma mistura confusa de administração, direção, organização e racionalização, isto é, um conjunto de condições indispensáveis ao crescimento económico e empresarial, mas este, inevitavelmente, fortaleceria os sindicatos, o que o tornava indesejável do ponto de vista do regime.
Em 1974, com a revolução de abril, surge a oportunidade de tomar Troia. No Iscte, o curso de ciências do trabalho foi transformado no curso de Sociologia, o primeiro do país, e é consolidado o lugar do estudo e do ensino da Antropologia Social e da História Contemporânea nos diferentes cursos, incluindo o curso de Organização e Gestão de Empresas. A partir de então, forma-se uma terceira base de recrutamento de professores: jovens formados no estrangeiro, muito deles exilados políticos do regime autoritário, que se juntam ao GIS e ao Iscte, reforçando o quadro de investigadores-professores e contribuindo para um ambiente plural e cosmopolita.
A partir de meados da década de 80, inicia-se um período de expansão das atividades de investigação e de ensino que se prolongará até aos anos 2000.
No domínio da investigação, por iniciativa dos jovens docentes, são criados vários centros de investigação, ampliando um movimento iniciado ainda em 1979, com a constituição do Centro de Estudos de História Portuguesa Contemporânea (CEHPC), e prosseguido em 1981 com a fundação do Centro de Estudo Africanos. São assim sucessivamente criados: em 1984, o Centro Interdisciplinar de Estudos Económicos (CIDEC); em 1985, o Centro de Investigação e Estudos em Sociologia (CIES); em 1986, o Centro de Estudos de Antropologia Social (CEAS); em 1989, o Centro de Estudos sobre Mudança Socioeconómica (DINAMIA), a Associação para o Desenvolvimento das Telecomunicações e Técnicas de Informática (ADETTI), bem como o Centro de Investigação e Intervenção Social (CIIS), na área da psicologia social; em 1991, o Centro de Estudos Territoriais (CET). Em 1994, é criada a Unidade de Investigação em Desenvolvimento Empresarial (UNIDE). Mais tarde o CET haveria de se juntar ao DINAMIA e o CEHCP ao CIES, a ADETTI, alargando o seu âmbito à arquitetura, daria lugar ao atual Centro de Ciências e Tecnologias de Informação e Arquitetura (ISTAR), e o Centro de Estudos Africanos (CEA) transformar-se-ia no Centro de Estudos Internacionais (CEI).
Em 1988, assinala-se a constituição de uma associação entre o Iscte e um grupo de empresas de diversos sectores de atividades económica, o Instituto para o Desenvolvimento da Gestão Empresarial (INDEG), que tem como principal missão a formação pós-graduada de executivos em gestão.
Neste mesmo período, no campo do ensino, o Iscte promoveu uma agenda inovadora, dando um contributo efetivo para a modernização da universidade portuguesa, com a criação dos primeiros cursos de mestrado no país em diversas áreas disciplinares: em Sociologia, com especialização em Sociologia do Trabalho e Sociologia Urbana e Rural; na área da gestão, com a criação dos mestrados em Gestão, Estratégia e Desenvolvimento Empresarial, e em Sistemas de Informação em Gestão, bem como de pós-graduações em Comportamento Organizacional e em Políticas e Gestão de Recursos Humanos. O Centro de Estudos Africanos lançou a sua primeira pós-graduação em Desenvolvimento Social e Económico em África.
Além da formação pós-graduada, neste período foram ainda criados vários novos cursos de licenciatura: Informática e Gestão de Empresas; Gestão e Engenharia Industrial; Sociologia e Planeamento; Economia; História Moderna e Contemporânea; Gestão de Recursos Humanos; Finanças e Contabilidade; Engenharia Informática e Telecomunicações; Marketing e Engenharia Informática. Mais tarde serão criados ainda as licenciaturas de Arquitetura, Ciência Política e Serviço Social.
No início do novo século, quando se iniciou a adequação dos programas de ensino superior ao processo de Bolonha, o Iscte, que tinha, entretanto, completado 30 anos de existência, oferecia formação em 16 cursos de licenciatura, 32 cursos de mestrado e 7 de doutoramento.
O processo de expansão do Iscte fez-se por desdobramento e cruzamento disciplinar, a partir da matriz curricular dos seus dois cursos fundadores. Sociologia e Gestão de Empresas tiveram, desde a origem, matrizes curriculares pluridisciplinares, contruídas com o contributo de várias disciplinas de formação complementar, como a economia, a história, a psicologia, a antropologia, a matemática e a estatística. Simultaneamente, os cursos proporcionavam o aprofundamento de áreas de especialização nas disciplinas principais. No caso da sociologia, as especialidades em sociologia do trabalho, da educação, política, rural, urbana e do desenvolvimento. No caso da gestão, as especialidades em marketing, logística e operações, saúde, recursos humanos, entre outras. É a partir desta constelação de disciplinas complementares e de especialização que nascem os novos cursos de licenciatura e de mestrado, associados a dinâmicas de inovação geradas por iniciativa dos professores.
Dois fatores ajudam a compreender esta capacidade de inovação no Iscte, que constituem ainda hoje traços que o distinguem das universidades tradicionais. Por um lado, uma cultura de funcionamento pouco marcada pela rigidez da hierarquia académica, sendo as responsabilidades de ensino e de investigação distribuídas pelo conjunto dos professores, maioritariamente muito jovens, mais em função das suas capacidades e motivação e menos pelo seu posicionamento na carreia docente. Por outro lado, a autonomia, em todos os patamares ou níveis de decisão, desde o topo até à base, resultante do estatuto institucional autónomo do próprio Iscte, isto é, um instituto universitário não integrado nas estruturas rígidas das universidades tradicionais. Como assinalou Paquete de Oliveira:
Assim, pelo menos até 1988, data da publicação da Lei da autonomia das universidades, o Iscte gozou sempre de um grau de autonomia, sobretudo pedagógica e científica, muito superior ao das universidades tradicionais. Estas são provavelmente as razões que levam muitos dos que recordam a história do Iscte a afirmar que é a única universidade do país que se desenvolveu de baixo para cima, a partir da iniciativa do corpo docente que tirou pleno partido da autonomia de que beneficiava.
No panorama do ensino superior público em Portugal, o Iscte é o único instituto universitário especializado. O reconhecimento e afirmação deste estatuto iniciou-se com a publicação da Lei de Bases do Sistema Educativo, de 14 de outubro de 1986, e da Lei da Autonomia das Universidades, de 24 de setembro de 1988, tendo o processo de consolidação do estatuto de Instituto universitário especializado duas dimensões, uma institucional e outra substantiva.
Do ponto de vista institucional, são relevantes alguns marcos. Em 1990, foram aprovados e promulgados os estatutos da instituição nos quais se consagrou a designação de “Instituto Universitário não integrado”, tendo passado a poder conceder, de forma totalmente autónoma, o grau de Doutor. Em 2000, foram aprovados e promulgados novos estatutos, nos quais a orgânica e os poderes dos órgãos de governo estabelecidos passaram a ser em tudo idênticos, exceto no nome, aos das universidades. Em 2005, o Iscte passou a integrar o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) e, em 2006, aprovou em Assembleia de Escola a sua redenominação como Instituto Universitário de Lisboa.
Do ponto de vista substantivo, o marco relevante é, em 2007, a decisão de abandonar projetos de alargamento e diversificação das áreas disciplinares, ancorando o desenvolvimento futuro do Iscte em projetos de ensino pós-graduado e nas atividades de investigação, nas áreas disciplinares fundadoras: ciências empresariais, sociologia e políticas públicas, tecnologias de informação e comunicação, ciências sociais e humanas.
Esta decisão tem dois momentos importantes de concretização. A partir de 2007 com a adequação dos cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento ao processo de Bolonha. E, posteriormente, a partir de 2009, com a adoção, pelo Iscte, do Regime Fundacional, no quadro do novo Regime Jurídico do Ensino Superior, aprovado em 2007, e a consequente reforma da organização interna e a instituição das suas atuais quatro escolas e 16 departamentos:
Em 2022-2023, com a criação da nova (5.ª) Escola de Tecnologias Aplicadas (Iscte-Sintra) entraram em funcionamento novos cursos de 1.º ciclo (licenciatura).
No contexto de aprofundamento das áreas disciplinares fundadoras, continuam a ser criados novos cursos de mestrado e de doutoramento, por desdobramento, cruzamento e aprofundamento disciplinar: ciência política, políticas públicas, serviço social, economia política, administração escolar, gestão de hotelaria e turismo, ciência de dados e ação humanitária.
Presentemente, o Iscte oferece 29 cursos de licenciatura, 62 de mestrado, 25 de doutoramento e inúmeras pós-graduações, acolhendo mais de 14 mil estudantes, de 96 nacionalidades.
Há um século, o território onde hoje se encontra implantado o Iscte era campo agrícola, que abastecia Lisboa de hortícolas e outras culturas.
Hoje, o campus do Iscte está no centro da capital e abastece a cidade e o mundo de criatividade e inovação, seja no ensino superior ou na investigação.
Agora é possível fazer uma visita à evolução do Iscte, através do novo site "Arquitetura e a Cidade" no qual é apresentado O SÍTIO, OS EDIFÍCIOS e O ARQUITETO, alargando o olhar sobre o Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, a partir da arquitetura e do urbanismo. Um novo site que resulta de um trabalho de pesquisa dos arquitetos João Alves da Cunha e Paula André.
A criação do Iscte assentou em quatro traços distintivos que marcaram indelevelmente a sua história. Talvez o principal desafio futuro seja preservar esses mesmos traços, tendo em vista continuar a trajetória que permitiu construir esta instituição, que em breve completará 50 anos.
Em primeiro lugar, o objetivo de modernizar a universidade e o país, através da formação de quadros em moldes e em áreas disciplinares diferentes dos tradicionais. Até hoje, o Iscte manteve-se uma universidade diferente, especializada, e que, a partir das suas duas áreas fundadoras, sociologia e gestão, inovou sempre, ao longo dos seus 45 anos de história, abrindo novas áreas de ensino e investigação, gerando dinâmicas de criação de novos cursos, tendo sido pioneiro na abertura dos cursos como os de Sociologia, de Psicologia Social e das Organizações, de Antropologia Social, de Informática e Gestão de Empresas, ou de Políticas Públicas. Em 2018, seguindo esta trajetória, foram lançados novos cursos inexistentes no país, em Ação Humanitária e em Ciência de Dados.
Em segundo lugar, a articulação entre as atividades de ensino e as atividades de investigação e de produção de conhecimento, estabelecida desde a primeira hora pela ligação entre o Iscte e o GIS. Este foi o primeiro centro de investigação do País na área das ciências sociais e económicas e a circulação virtuosa entre o GIS e o Iscte, entre os lugares de investigação e de ensino, deixou uma marca que ainda perdura. O Iscte tem hoje oito centro de investigação que, em sede de avaliação institucional, têm mantido as mais elevadas classificações de Muito bom ou de Excelente, sendo a universidade com a maior percentagem de cursos e de estudantes em formação pós-graduada (mestrados e doutoramento). Em 2019, foi criado um centro de transferência de conhecimento e tecnologias – Iscte, Conhecimento e Inovação –, como espaço de trabalho colaborativo e interdisciplinar, o qual reúne, numa combinação inédita no país, as ciências sociais e humanas e as tecnologias digitais. A complexidade dos problemas que enfrentam as sociedades contemporâneas exigem o contributo das ciências sociais e o desenvolvimento das tecnologias digitais num paradigma que envolva conhecimento interdisciplinar e não centrado exclusivamente nas ciências da engenharia.
Em terceiro lugar, a orientação para a valorização do mundo do trabalho e das empresas, bem como das instituições do sector público, pautada pela intervenção, a relevância e a aplicação dos conhecimentos aos contextos profissionais do tecido empresarial e do tecido público. Tal orientação tem-se traduzido, ao longo da história do Iscte, no desenvolvimento da formação de executivos, de cursos em regime pós-laboral destinados a adultos já integrados no mercado de trabalho. O Iscte é atualmente a única universidade no país que oferece a maioria dos seus cursos de pós-graduação, de mestrado e de doutoramento em regime pós-laboral, bem como alguns dos seus cursos de licenciatura. Acresce que, tendo em vista manter e desenvolver os processos de ligação à sociedade e de transferência de conhecimentos, além do INDEG, foram criadas duas novas entidades participadas. Em 2005, foi constituído o Audax, um centro de inovação que, além de exercer atividade de consultoria, acolhe também diversos projetos com o objetivo de transformar ideias em negócio. Em 2011, foi criado o Instituto de Políticas Públicas e Sociais (IPPS) que reúne diversos organismos públicos e autarquias, com o objetivo de promover e contribuir para a melhoria da qualidade das políticas públicas.
Em quarto lugar, a autonomia e o pluralismo, sempre valorizados pela comunidade Iscte. Os elevados graus de autonomia e de diversidade internas permitiram uma trajetória de dinamismo e inovação. Continuar esta trajetória exige que se dê particular atenção à preservação do equilíbrio entre a autonomia científica e académica, baseada no poder profissional de professores e investigadores, e a eficiência e eficácia na gestão dos recursos públicos. Mas exige, também, que se mantenha o espírito de colegialidade e de relacionamento entre pares que permita ultrapassar a rigidez da autoridade académica e estimule a realização profissional de todos os professores, independentemente da sua categoria profissional.
Finalmente, continuar esta trajetória exige que, apesar do crescimento do Iscte, se mantenha a cultura de proximidade entre estudantes e docentes: a facilidade de comunicação e a disponibilidades dos docentes do Iscte para apoiar os estudantes no seu processo de desenvolvimento são um traço distintivo que também deve ser cultivado.
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Criação do Grupo de Investigação em Estatística e Análise de Dados (GIESTA-ISCTE)
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Criação do Centro de Estudos de Direito de Empresas da Administração Pública e das Comunidades Europeias (JUSOECONOMIAE)
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Criação do Doutoramento em Antropologia
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