PT
O contexto escolar, enquanto espaço privilegiado de desenvolvimento e com
potencial impacto para a trajetória das crianças e jovens, tem sido considerado central
para o reconhecimento, identificação e revelação de situações de abuso sexual. Assim, o
presente estudo teve como objetivo explorar o papel do género da vítima e do perpetrador
nas atribuições feitas por professores em casos hipotéticos de abuso sexual de crianças,
incluindo o papel moderador das crenças patriarcais.
Participaram neste estudo 283 professores do ensino básico e secundário (85.5%
mulheres), que responderam online a um conjunto de questionários de autorrelato. Além
disso, foram expostos aleatoriamente a uma vinheta de uma situação hipotética de abuso
sexual, após a qual responderam a um conjunto de questões sobre atribuições de
culpabilidade do perpetrador e da vítima, credibilidade e honestidade da vítima, e
severidade do abuso.
Os resultados evidenciaram efeitos estatisticamente significativos da manipulação
experimental na severidade do abuso e honestidade da vítima. Especificamente, os testes
post-hoc revelaram que os professores reportaram níveis superiores de severidade do
abuso numa situação de abuso sexual por parte do pai ao filho em comparação a uma
situação por parte da mãe ao filho. Por outro lado, níveis mais elevados de honestidade
da vítima foram reportados numa situação de abuso sexual por parte do pai ao filho do
que por parte do pai à filha ou da mãe à filha. Não foram encontrados efeitos de
moderação estatisticamente significativos.
Estes resultados reforçam a necessidade de uma formação interseccional que
envolva a temática do abuso sexual, papéis de gênero e masculinidades.
EN
The school, as a privileged context for development and with a potential impact
on the children and adolescents’ trajectories, has been considered vital to the recognition,
identification, and disclosure of child sexual abuse. Accordingly, the present study aimed
to explore the role of the victim’s and perpetrator’s gender in teachers’ attributions in
hypothetical cases of child sexual abuse, including the moderating role of patriarchal
beliefs.
A total of 283 primary and secondary school teachers (85.5% women) participated
in the study, responding online to a set of self-report questionnaires. Additionally, they
were randomly exposed to a hypothetical vignette describing a case of sexual abuse, after
which they answered questions focused on victim and perpetrator blaming, the victim’s
credibility and honesty, and the severity of child sexual abuse.
The results revealed statistically significant effects of the experimental
manipulation on the severity of child sexual abuse and the victim’s honesty. Specifically,
post-hoc tests showed that teachers reported higher levels of abuse severity in cases of
father-to-son sexual abuse compared to mother-to-son abuse. Furthermore, higher levels
of victim honesty were reported in cases of father-to-son abuse than in cases of father-to-
daughter or mother-to-daughter abuse. No statistically significant moderating effects
were found.
These findings underscore the need for intersectional training that addresses
sexual abuse, gender roles, and masculinities.