PT
A presente dissertação procura compreender a forma como as práticas de escuta e o
respetivo capital cultural influenciam as preferências musicais do indivíduos e
consequentes mecanismos de exposição e ocultação musical. Recorrendo ao modelo de
classes sociais ACM, pretende-se analisar o papel das expetativas sociais na ocultação e
apresentação de determinados conteúdos musicais. Conteúdos estes que podem interferir
na gestão identitária do sujeito. Este estudo irá refletir sobre as dinâmicas emergentes nos
novos espaços de mediação algorítmica como o Spotify.
Para tal, recorreu-se a uma abordagem qualitativa, através de entrevistas
semidiretivas. Os resultados mostram que o fenómeno da ocultação musical não advém
apenas do conteúdo lírico ou da estrutura melódica, mas principalmente das
considerações sociais face ao capital cultural e ao habitus de cada indivíduo, mediante o
contexto onde o mesmo se insere. Com base nas entrevistas efetuadas, é investigado o
impacto das expectativas sociais na necessidade de ocultação de faixas consideradas
culturalmente desprovidas de valor. A música, tal como outras práticas culturais
existentes, fornecem, não só momentos de entretenimento e lazer, mas também são parte
integrante da construção identitária, seja a nível individual ou coletivo. É uma prática
ambivalente que concilia simultaneamente a expressão autónoma e a permanência da
estrutura de classes. O Spotify, assim como outras plataformas de streaming, através da
personalização algorítmica pretende auxiliar a construção das preferências musicais. No
entanto, devido às configurações da plataforma, o nível de exposição musical também
aumenta, promovendo assim uma possível expansão de uma cultura de gosto omnívora.