PT
O tema da classe média em África, embora amplamente debatido, apresenta ainda lacunas empíricas
significativas, especialmente nos países da África Subsaariana. O rendimento e o poder de consumo
foram já considerados insuficientes para determinar a classe média, tendo os hábitos quotidianos e a
sua relação com estatuto e prestígio sido gradualmente utilizados em várias disciplinas como um
melhor indicador. As conjunturas políticas e históricas também se revelaram fundamentais para uma
melhor compreensão da mobilidade entre classes.
O presente estudo visa explorar o conceito de classe média em Moçambique, procurando
responder a três perguntas centrais: “Quais as perceções das mulheres empreendedoras em Maputo
relativamente à classe média?”; “Qual a visão das mulheres empreendedoras de hoje, em Maputo,
sobre as mudanças nas ambições e expressões de classe?"; e “De que forma o empreendedorismo
(feminino) pode ter impacto na mobilidade social?". Aqui, considera-se especificamente o
empreendedorismo formal exercido por mulheres em Maputo, Moçambique.
Para responder a estas questões, foram realizadas entrevistas de história de vida com mulheres
empreendedoras de Maputo, complementadas por observações de campo e uma revisão da literatura
relevante. As conclusões sugerem que a classe média de Maputo, segundo a perceção das
interlocutoras, está a afastar-se das tradicionais elites privilegiadas e dependentes do Estado e a
transformar-se num grupo mais independente, caracterizado pelas suas ambições de autorrealização
e pela luta por uma vida melhor. Além disso, o empreendedorismo é visto como uma boa opção para
a mobilidade social ascendente, porém o sucesso depende grandemente de fatores como os contextos
socioeconómicos e o carácter individual.
EN
The topic of middle class in Africa though broadly discussed, still faces significant gaps in terms of
empirical data, especially from sub-Saharan countries. It has been well-established that measures such
as income and consumption power are insufficient to assess middle classness. Everyday habits and
how these relate to status and prestige have been increasingly used in a number of disciplines as a
better gauge. Specific political and historical contexts have also been considered key to better
understand how people navigate classes.
This study aims to explore the concept of middle class in Mozambique, by trying to answer three
main questions: ‘How do women entrepreneurs in Maputo perceive middle classness?’; ‘What are the
views of today's women entrepreneurs in Maputo about changing class ambitions and expressions?’;
and ‘How can (female) entrepreneurship impact on social mobility?’. Here, entrepreneurship is
specifically regarded as formal entrepreneurship carried out by women in Maputo, Mozambique.
To answer these questions, life story interviews were conducted with women entrepreneurs from
Maputo and complemented by field observations and a review of relevant literature. The findings
suggest that Maputo middle class, as perceived by women entrepreneurs, is moving away from
traditional privileged and state dependent elites towards a more independent group of society,
characterised by their ambitions of self-fulfilment and the quest of a better life. Furthermore,
entrepreneurship is seen as a desirable option for social upward mobility, but its success is highly
dependent on factors such as socioeconomic backgrounds and the individual character.